Chuvas e secas recordes nos últimos anos são um risco para a rede de eclusas e lagos fundamental para a economia do planeta e põem em xeque o abastecimento de água potável aos panamenhos.

O Canal do Panamá é um feito da engenharia que ainda impressiona 109 anos após sua inauguração, com seus 80 quilômetros que ligam o Atlântico ao Pacífico. Mas um novo desafio ronda a travessia, por onde passa cerca de 3% do comércio marítimo global: a crise climática. Chuvas e secas recordes nos últimos anos são um risco para a rede de eclusas e lagos fundamental para a economia do planeta e põem em xeque o abastecimento de água potável aos panamenhos.

Especialistas e operadores do canal, munidos com monitoramento climático desde 1880, não têm dúvidas de que o aquecimento global está por trás dos fenômenos extremos — e as autoridades quebram a cabeça por soluções viáveis para garantir o funcionamento da rota. Os últimos 25 anos registraram oito das 10 maiores tempestades da série histórica de 142 anos. Houve também dois dos anos mais secos e o período de três anos seguidos com menos chuvas. Para o diretor do Programa de Monitoramento Físico do Instituto Smithsonian de Pesquisa Tropical, Steve Paton, está evidente que “as coisas mudaram”:

— Se você tem só 50 anos e começa a dizer “foi o ano mais chuvoso”, pode ser simplesmente uma aleatoriedade. Mas quando se tem 142 anos, é possível começar a fazer declarações estatisticamente significativas — afirmou. — O cenário panamenho é completamente consistente com as previsões de modelos das mudanças climáticas.

A construção de novas barragens para aumentar a reserva de água é cogitada há décadas, mas nunca foi adiante. Neste momento de maiores desafios da operação do canal por causa do clima extremo, tais opções voltaram à mesa. Em 1999, ano em que assumiu o controle do canal, o Panamá aprovou uma lei que dava à autoridade do canal o controle da bacia hidrográfica no Oeste do país, onde barragens poderiam ser construídas, mas os impactos socioambientais e repúdio da sociedade fizeram a lei ser rescindida em 2006.

Outras possibilidades de uma cada vez mais necessária ação esbarram em obstáculos geográficos, sociopolíticos e práticos, como prejudicar o fluxo para usinas hidrelétricas. Enquanto a equação não é resolvida, o maior responsável por fornecer água é o lago artificial Gatún, que faz parte do canal e tem uma área de 425 km².

Épocas de El Niño e La Niña

Também é do Gatún que vem a água usada para o abastecimento de quase metade dos 4,3 milhões de habitantes do país. As secas vêm habitualmente em temporada de El Niño, o fenômeno de aquecimento das águas tropicais do Pacífico. Os anos mais úmidos são quando há La Niña, ou o esfriamento mais intenso que o normal das mesmas águas.

Em 2010, ano de La Niña, a tempestade apelidada de “La Puríssima” causou a maior incidência pluviométrica histórica já registrada em 48 horas na região. Canais de escoamento raramente usados precisaram ser abertos para evitar que as barragens transbordassem, o que inviabilizaria a travessia.

Isso tudo coloca em risco as finanças do pequeno país. Apenas no ano fiscal de 2022, a receita gerada pelo canal passou de US$ 4,3 bilhões (R$ 22,4 bilhões). E o impacto é global: os três maiores beneficiários do atalho marítimo são Estados Unidos, China e Japão.

Exploração americana

Mas o abastecimento dos cofres panamenhos pelo canal é um fenômeno mais recente: da inauguração em 1914 até 1999, eram os americanos que administravam o canal. A herança é sentida até hoje, seja na economia dolarizada ou na semelhança que a parte nova da capital panamenha tem com Miami, com seus arranha-céus à beira-mar e restaurantes de redes americanas.

— A política americana era deliberadamente negar ao Panamá quaisquer benefícios econômicos e criar o canal como se não houvesse um país ao redor. Mas é claro que havia — disse Noel Maurer, autor do livro “A Grande Vala: Como os EUA pegaram, construíram, fugiram e eventualmente cederam o canal do Panamá”.

De olho nas oportunidades, houve quem tentasse construir o canal bem antes de Washington: a primeira proposta para a construção é de 1529, nas etapas derradeiras da colonização espanhola. O francês Ferdinand de Lesseps, idealizador de Suez, tentou sem sucesso no fim do século XIX, esbarrando em problemas que iam da malária ao mau planejamento.

Os EUA tentavam se envolver na obra desde antes de Lesseps, de olho nas vantagens econômicas. Negociavam ativamente com a Colômbia, de quem o Panamá fazia parte à época. Quando as conversas colapsaram no fim de 1903, o governo de Theodore Roosevelt decidiu apoiar o movimento pró-independência panamenho. A concessão para o canal foi cedida dias após a independência.

Ao Panamá, coube um pagamento único de US$ 10 milhões e anuidades de US$ 250 mil, em valores da época. A tensão ao redor da presença americana nunca foi inexistente, com vários incidentes e protestos ao longo dos anos.

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Fonte: DW Made for minds  –  Em 13/3/2023.

Diponível em: https://www.dw.com/pt-br/mudan%C3%A7as-clim%C3%A1ticas-amea%C3%A7am-canal-do-panam%C3%A1/a-51853579