Ao menos 20 famílias vivem em uma aldeia às margens do rio Paraopeba, afluente do rio São Francisco, que já sofre com o impacto da chegada dos rejeitos de minério de ferro. Água tem com peixes mortos e extensão da contaminação é dúvida.

Nas margens do rio Paraopeba, afluente do rio São Francisco que banha o Estado de Minas Gerais, vivem também os índios Pataxós Hã-hã-hãe, da aldeia Naô Xohã. Vítimas indiretas do rompimento da barragem 1 da Mina Feijão, em Brumadinho, eles se recusam a deixar a aldeia onde vivem, no município de São Joaquim de Bicas (município vizinho), mas observam com apreensão o avanço da lama e dos rejeitos pelo rio de onde o povo tira seu sustento. Nesta segunda-feira, 28 de janeiro, um grupo de indígenas foi ao rio ver a extensão da contaminação e já encontrou peixes mortos.

Vejam o texto:

Instituto analisou 47 amostras coletadas pela Polícia Civil Ambiental ao longo do rio e atestou concentrações de chumbo e mercúrio ’21 vezes o valor do limite de classe’.

Além de centenas de pessoas, o rompimento da barragem Córrego do Feijão também matou o Rio Paraopeba, fonte de sustento e alimentação de centenas de ribeirinhos, índios e agricultores. Com alta concentração de metais pesados, a água do Paraopeba não pode ser mais utilizada para a lavoura ou na criação de animais. O Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) analisou 47 amostras coletadas pela Polícia Civil Ambiental ao longo do rio e atestou concentrações de chumbo e mercúrio “21 vezes o valor do limite de classe”. Às margens do Paraopeba, boiam peixes de várias espécies – corumba, mandi, dourado, surubim e piau.

“Tudo descendo o rio, morto”, conta a auxiliar de serviços Sandra das Chagas Silva Gondim, 25, moradora de Parque da Cachoeira, um dos distritos mais afetados pela lama. Ela recolheu 38 sacos de peixe. Como ainda não havia sido divulgado o laudo do Igam, o pescado foi distribuído entre os vizinhos e consumido. “Tem muita gente desempregada em Cachoeira. Então, o sustento é pegar um peixe no rio e comer com o que tiver, arroz, mandioca. Com o rio assim, como que vai ser agora? É muita tristeza”.

Mais abaixo, em São Joaquim de Bicas, a poucos quilômetros de onde o Córrego do Feijão desemboca no rio Paraopeba, está a aldeia Naô Xohã, da etnia pataxó, primeira comunidade atingida pelo rio morto. “O café da manhã era peixe com farinha e mandioca cozida. Agora temos de pedir forças pros nossos encantos. Vidas perdidas, o rio destruído. É uma tragédia”, disse ao Conselho Indigenista Missionário (Cimi) o cacique Háyó Pataxó Hã-hã-hãe.

As 37 famílias sofrem com o impacto da chegada dos rejeitos de minério de ferro, mas se recusam a deixar a aldeia onde vivem. Ela foi evacuada no sábado, 26, após a ameaça de rompimento de uma segunda barragem, mas os índios voltaram para o local onde moram. “A dúvida é como a aldeia irá sobreviver às margens de um rio poluído”, publicou em nota o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), ligado à CNBB.

Agricultor Tonico Francisco de Assis, assim como muitos outros da região, também estão entre os atingidos. Ele olhava desolado os canteiros semeados à margem do que antes era um córrego e hoje é só lama. Ali, a poucos metros, ele captava água para irrigar a plantação de hortaliças que são levadas para o Ceasa e distribuídas para a região metropolitana de Belo Horizonte. “Não tem como nunca mais existir alguma coisa aqui”.

Batizado pelos índios Tupis como “rio das águas rasas”, o Paraopeba por um bom tempo vai ser apenas um rio de águas turvas.

Fonte: Jornal O Dia – 3/2/2019.

Disponível em: https://odia.ig.com.br/brasil/2019/02/5617100-brumadinho–rompimento-de-barragem-tambem-matou-o-rio-paraopeba.html?fbclid=IwAR12HIzoRvYyr54Qg6Zv67jPFj1JObRXbmc2JcoIALiDlqHaxdspDocI6pw