Inicialmente devemos entender que eles estavam lá, na localidade, antes de você chegar. É o habitat deles, a casa deles.

No último domingo, uma mulher de 56 anos, foi atacada por uma capivara enquanto passeava na Lagoa, na Zona Sul. Caso semelhante aconteceu com um adolescente de 15 anos, em outubro. Ambos precisaram ser medicados. Encontrar um animal silvestre pelo caminho não é tão raro assim para o carioca, que vive numa cidade que possui vários ecossistemas e por isso tem uma paisagem tão exuberante e admirada por todos. Por aqui é possível encontrar restinga, manguezais e mata atlântica, tudo isso na área urbana.

Sendo assim, não é difícil também, além das capivaras, cruzar pelo caminho ou até mesmo no seu quintal com espécies como jacarés, micos, preguiças, gambás, gaviões, cobras e capivaras, entre outros bichos.

A falta de um planejamento urbano e de proteção de áreas naturais para as espécies na nossa cidade acaba promovendo esses encontros (do humano com os bichos) — explica a bióloga Cecília Bueno, especialista em fauna.

Para lidar com essas espécies é necessário seguir um verdadeiro manual de conduta com alguns protocolos, que incluem manter o distanciamento e não alimentar os bichos em hipótese alguma. No caso dos dois ataques de capivara, por exemplo, o que chama a atenção é que as duas vítimas estavam passeando com os seus cães. A especialista alerta que os cachorros são vistos por esses roedores como predadores e, por isso, é natural que eles partam para o ataque, até mesmo como uma forma de defesa. E, se estiverem com filhotes, ficam mais agressivos ainda.

Passear com cão numa área onde tem capivara aumenta a chance de ela se defender atacando. É bom evitar — aconselha a especialista, recomendando nesse caso que a pessoa mantenha uma distância segura — Ela (a capivara) não tem como racionalizar ou raciocinar nem mediar e pensar que o animal não vai atacar porque está numa guia e o humano não vai deixar.

Cecília Bueno, que é doutora pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professora titular do mestrado em Ciência do Meio Ambiente, Biologia e Engenharia Ambiental da Veiga de Almeida, diz também que todo tipo de interação com o animal silvestre é perigosa, porque eles não estão acostumados com a aproximação dos humanos. Alimentá-los, também, nem pensar. Isso pode levar risco para a saúde deles.

Animal silvestre tem que admirar à distância até mesmo para proteção deles. A gente pode passar vírus e doenças. Os micos e macacos são suscetíveis e herpes e nós somos portadores da doença. Se a gente dá a eles um alimento que botou na boca e por acaso a pessoa está doente ou vírus está circulante e isso vai para o alimento, o macaco ou mico que se alimentar daquela comida pode se contaminar. Um mico se pegar herpes pode matar seu grupo inteiro, porque eles se lambem muito e interagem bastante entre eles — alerta a bióloga.

O biólogo Mário Moscatelli, com mais de 30 anos de experiência no trabalho em lagoas e manguezais, reforça que o protocolo padrão para lidar com os animais silvestres inclui não se aproximar deles e nem alimentá-los. Caso o animal invada o ambiente doméstico, recomenda solicitar a ajuda do Corpo de Bombeiros ou da Patrulha Amiental, que possuem equipamento e técnica para fazer esse tipo de resgate com segurança para o bicho e para a população.

— Vivemos uma geração que estamos tentando resgatar essa afiniadade com a fauna, mas está faltando uma sintonia fina, que é respeitar os animais e o distanciamento. Se mantiver uma boa distância (dos animais silvestres) você evita a maioria dos problemas — aconselha.

No caso das capivaras, segundo Moscatelli, elas são mais encontradas em três pontos específicos da Lagoa Rodrigo de Freitas: canal de escoamento do Rio dos Macacos, Parque dos Patins e Fonte da Saudade. Esses trechos já foram sinalizados, alertando os frequentadores para a presença dos roedores. Segundo o biólogo, elas prefem ficar ali por serem as áreas mais largas da margem da lagoa.

No Recreio, na Zona Oeste, quem vive próximo ao Canal das Tachas está acostumado à presença dos jacarés. Uma equipe do GLOBO esteve no local nesta quarta-feira e constatou a presença de mais de 15 répteis. A presença deles acaba atraindo curiosos. Moradora no local há mais de 20 anos, Maria Marta Abreu destaca a importância da preservação da espécie, mas reconhece que a população desrespeita a regra básica apontada pelos especialistas.

— Eles (os jacarés) vivem aqui porque o pessoal cuida, joga comida. Essa lagoa não produz mais peixe devido o relaxamento da prefeitura, que não faz encosta nem nada. É preciso que se faça alguma coisa para a espécie continuar. Quando a gente veio para cá, para o Recreio, eles já estavam aqui — reconhece.

A economista Thalita Lima, de 29 anos, contou que os jacarés já foram avistados recentemente até na praia da Macumba. A moradora diz que tem medo de encontrar com um dele no seu caminho e apressa o passo sempre que passa perto do canal.

— Todo dia que a gente vai naquele lugar (no canal) tem jacaré ali. Esse canal vai até lá na frente, na Praia da Macumba. Na semana passada tinha um lá. Teve muita água e ele foi jogada para a área do mar.

Eu não estava lá. Vi na reportagem e os bombeiros falaram para a gente. É perigoso . Eu tenho medo de eles sairem para a rua. Quando passo ali é meio complicado, eu vou bem rápido. Eles comem cachorrinhos e o pessoal dá carne também — afirma.

Cecília Bueno aterta que fora do seu ambiente natural os animais silvestres ficam mais expostos, sob risco e assustados. E, por estarem num lugar que para eles é hostil, podem atacar.

— A gente deve evitar contato também para não levar doença para os animais e não pegar doenças.

Em alguns casos, como das capivaras da Lagoa, ela diz que parte dos problemas podem ser solucionados com medidas educativas, que incluem a colocação de placas, como as que existem em alguns trechos, alertando para a presença dos animais. Ela acredita ainda ser fundamental a participação dos donos dos quiosques, orientando os frequentadores para os riscos. Além disso, acrescenta ser importante a preservação da higiene no entorno para segurança das aves e capivaras que circulam ali.

Como agir conforme cada caso:

* Jacaré – Se aparecer dentro de casa, saia e tranque a porta. Se for no quintal deixe-o numa área isolada e a uma distância segura. Busque ajuda do Corpo de Bombeiros ou Patrulha Ambiental.

* Capivara – A presença do cão pode aumentar o risco de ataque, principalmente se o animal não estiver na coleira. Outro risco potencial é no caso de a capivara estar com filhotes, quando ela pode atacar para defendê-los. Para quem acha esses bichos fofinhos, fotos só a uma distância segura, de no mínimo quatro metros. É recomendável no caso usar o zoom da câmera fotográfica.

* Micos e macacos em geral – Não se deve alimentá-los. Isso gera dependência com o humano e riscos de invasão, além dos problemas de doença. Peça ajuda para removê-los.

* Gaviões e outros tipos de ave – As aves são mais ariscas e avessas à aproximação. O problema aí é quando fazem ninho e isso pode gerar perigo potencial para as pessoas. Gavião é agressivo e territorialista. Se ele gerar risco, o conselho é chamar os bombeiros ou Patrulha Ambiental.

* Gambás – Apesar de sua utlidade, por ser importante controlador de pragas em áreas urbanas, já que se alimenta de escorpiões, por exemplo, podem ser agressivos se sentirem ameaçados. Não deve tocá-los, sob risco de eles se sentirem ameaçados e atacarem.

* Cobras – Não tem muito o que fazer. Por serem extremamente perigosas, o melhor conselho é buscar a ajuda dos bombeiros ou da Patrulha Ambiental.

Onde pedir ajuda:

O Corpo de Bombeiros pode ser acionado em caso de risco para a população ou para o animal, pelo número 193. O pedido de ajuda também pode ser direcionado para a Patrulha Ambiental, do município, pelo serviço 1746.

 Fonte: Portal Jornal O Globo  –  18/3/2022.
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