Considerada uma das mais belas aves brasileiras, o Guará-vermelho (Eudocimus ruber) possui plumagem de coloração vermelho vivo, que está associada à alimentação. Seu tom vermelho-carmesim vem da cataxantina, substância derivada do caroteno, encontrada em abundância na casca do caranguejo. Guaratiba foi batizada pelos tupinambás, por causa da grande quantidade dessas garças: guará – ave aquática pernalta – e tiba – reunião de muitas coisas. Com bico longo e curvo, pernas finas e compridas, mede cerca de 60 cm e vive entre 10 e 16 anos. No Brasil, grupos isolados ocupam os mangues de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Bahia. No Rio de Janeiro, essas aves eram vistas na Baía de Guanabara até 1952 e um exemplar foi observado na Barra da Tijuca

 Em 2012, esta ave típica de manguezais, retornou a Santa Catarina após um longo período de extinção local. A constatação foi da equipe do Projeto Aves, da Univille, que monitora a espécie na Baía da Babitonga, litoral norte do Estado. O último registro oficialmente documentado no Estado é de 1858.

Ela é nada menos que o símbolo da Reserva Biológica Estadual de Guaratiba e já ilustrou folder de festival de música e marca de associação de moradores. Só que, há mais de duas décadas, não sobrevoa Guaratiba. O último relato confiável sobre a sua presença por lá (e no Rio) é de 1996.

 Agora, o projeto de reintrodução “Volta guará”, do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), pretende reintroduzir a espécie em Guaratiba.

A ave é classificada como criticamente ameaçada no Estado do RJ.

No entanto, biólogos dizem que ela está extinta aqui.

 A bióloga Diana Levacov, coordenadora do “Volta guará”, articula a vinda de 20 animais de um parque de Belém para o manguezal de Guaratiba.

 Finalizado no mês passado, este projeto está em fase de captação de recursos — no momento, participa de edital do Fundo de Defesa de Direitos Difusos, do Ministério da Justiça, que financia iniciativas de reparação de danos ao meio ambiente. Mas os participantes do projeto — avaliado em R$ 2,5 milhões, para aplicação em dois anos não descartam o apoio da iniciativa privada. A ideia é que o bichinho vire um ícone de preservação do manguezal, cumprindo, com o seu encantamento, o papel de “guarda-chuva”, que é o de ajudar a proteger outras espécies.

 O guará vive em bando e suas revoadas são atração turística em estados do Norte. Ele se alimenta de caranguejos.

 Quando a maré enche, os guarás têm que percorrer muitas áreas para se alimentar. E, como os jovens não têm um sistema digestivo bom para o sal, os adultos precisam buscar alimento para os filhotes no interior do mangue. Por isso, o guará necessita de uma área grande para viver — explica o biólogo Bruno Cid, do núcleo de pesquisas em biodiversidade, áreas protegidas e ecossistemas do Inea. — Conservando essa espécie, você conserva tudo o que está embaixo dela no mangue.

Antes de embarcarem de avião para o Rio, os guarás passarão por um período de quarentena no Norte e receberão transmissores para que sejam monitorados. Já em Guaratiba, a primeira etapa será de aclimatação. O trabalho envolve ainda educação ambiental, para afastar os vilões que contribuíram para extinguir a ave: a coleta de ovos, a caça e a remoção das penas, sem contar a poluição. O plano é ajudar na adaptação do grupo, colocando nas árvores bonecos de guarás pintados por crianças nas escolas.

 No Brasil, os guarás antigamente eram vistos em todo o litoral, com duas populações grandes: uma do Amapá ao Maranhão e outra do Rio a Santa Catarina. Atualmente, no Sudeste, estão presentes apenas em Cubatão e na Ilha Comprida, em São Paulo.

No século XIX, eles coloriam a Baía de Guanabara. Teriam começado a desaparecer no Rio na década de 1970, sendo que o último bando, com 15 animais, foi visto em 1952 na foz do Rio Magé. Há registros de um guará em 1979 na Lagoa da Tijuca, e outro em 1996 em Guaratiba, onde o bicho é uma lenda.

O alemão Helmut Sick, especialista na ornitologia brasileira, descreveu a ave como uma das “mais espetaculares do globo”. Se depender do carisma e da beleza do guará, o mangue de Guaratiba está a salvo.

 

Fonte: Jornal O Globo  –  2/12/2018.

Disponível em: https://oglobo.globo.com/rio/lenda-em-guaratiba-guara-pode-voltar-para-casa-23275075?fbclid=IwAR3NuIwFACHz2QeP3odDKyuK78YpMdjX2XMna879xAWcLPM0V0JbMobIEFM